Nas Colinas de Bastion, que contém um amontoado de vilarejos, o povo costuma chamar esta estação de O Inferno de Gelo.
Geralmente nos primeiros dias de inverno as crianças acordam cedo para brincar com a neve rasa que se forma. Nas Colinas de Bastion, os adultos levantam mais cedo de suas camas para retirar os corpos dos mendigos que morrem durante a noite para que suas crianças não vejam eles sentados em suas portas bloqueando a passagem com seus corpos duros.
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No começo alguns ainda sobrevivem se amontoando, mas quando o inverno realmente chega, de manhã é um sacrifício para despregar os corpos abraçados.
Mas sempre aparecem mais mendigos ao longo do ano.
Deve estar se perguntando: Dessa forma já não era para não ter mais mendigos? Se ao passar do inverno todos eles morrem, por que ainda tem tantos?
Deve estar se perguntando: Dessa forma já não era para não ter mais mendigos? Se ao passar do inverno todos eles morrem, por que ainda tem tantos?
Bem. Existe um reino muito próximo das Colinas de Bastion, pertencente à um homem detestável. Lá ele cobra impostos altíssimos, e quando você não pode mais pagar, você e mandado para as Colinas de Bastion com as mãos abanando, literalmente. Ele além de desprezível, é sádico, e gosta desse tipo de humilhação.
Agora também deve estar se perguntando:
- Mas como ele ainda tem pessoas em seu reino, agindo desta forma?
Simples. A algumas luas de distância de onde ficam as Colinas de Bastion e o reino deste crápula, ficam outros reinos menos cruéis que deixam que seus exilados levem consigo seus pertences. E os manda para as Colinas de Bastion no inverno achando que morrerão no caminho. Mas o inferno gelado começa somente nas colinas, antes disso ainda tem o reino deste infeliz.
Mas a uma coisa todos devemos agradecer.
NADA é para sempre.
Em uma situação como esta, somente alguém que sobreviveu ao Inferno Gelado das Colinas de Bastion, poderia acabar de vez com isso.
Foi em um início de inverno que um bebê acabou sendo encontrado por um mendigo de bom coração e nenhuma condição de criá-lo.
Ele andava segurando seu cachecol vermelho frente ao rosto na tentativa de bloquear um pouco o frio que fazia naquele bosque, já que sua barba espessa e grande não era o bastante.
A alguns meses aquele lugar ficou conhecido como Bosque dos Anjos, já que estranhos avistamentos de pessoas aladas aconteceram neste período de tempo.
Beirando o Lago da Donzela Alva, que recebeu o nome pelo avistamento de uma "anja" pálida como a neve, havia um bolo de cobertores. Ele sabia que eram os cobertores que alguns mendigos suicidas deixavam para a Donzela, porém, não acreditava em nada disso.
Assim que pegou as cobertas logo percebeu que no meio delas havia algo vivo..
Ou QUASE vivo, pelo menos.
Assim que desembrulhou as nove cobertas achou um bebê ainda com o cordão umbilical amarrado com uma correntinha de prata. Muito estranho por sinal.
Tinha orelhas pontudas, e logo percebeu que as duas metades superiores de suas costas eram mais protuberantes.
Foi aí que o mendigo se atentou a algo, e com sua voz roca e embragada disse:
- Oi? Coisa gorda, esta viva!?
Ele dormia profundamente, quase não respirava, não movia um único músculo sequer.
- E mais essa agora! Um bebê recém-nascido com um pé na cova! - Segurando o bebê em uma mão e as cobertas na outra teve de fazer uma escolha fora do comum para os próprios padrões. - Carcaças!!!
Ele sabia que gritar não aplacaria seus problemas nem sua raiva por estar cogitando ajudar um bebê.
Também sabia que não acordaria o bebê.
Pegou uma das cobertas mais limpas. Uma que não estivesse toda rasgada ou suja de sangue.
Embrulhou o pequeno e correu através da noite por dentro do bosque, cerrando os olhos por causa do vento frio da noite que o acertava fortemente. Sempre protegendo o bebê.
Vez ou outra seu pé ficava preso na grossa camada de neve que já se formava.
Ele sabia quem poderia ajudar aquela criança. Alguns aldeões tinham medo dele mas todos os procuravam quando queriam algo que não tinham capacidade para ter ou coragem para lutar por.
Ele não era tão poderoso, mas fazia oque estava ao seu alcance.
Era sua última esperança, se ele não pudesse ajudar, aquele bebê morreria.
Após correr por certo tempo, chegou a encosta de uma montanha.
- Olha aqui fedelho... - Abriu um pouco a coberta para verificar se tratava-se de um menino ou uma menina. - Fedelho. Se você morrer antes de eu chegar lá em cima, te jogo de lá mesmo.
Então ele começou a andar o mais rápido que pode montanha acima.
Já estava todo suado, isso era péssimo porque, se a temperatura caísse demais, podia morrer de hipotermia.
O cansaço já o havia alcançado também.
Faltava pouco para o topo, quando ele sente algo se mexendo em seus braços. Mas achou melhor não se distrair com isso.
Ao olhar para frente via que já se encontrava em frente a casa do homem que podia ajudá-lo.
Estava já no topo da montanha.
- Até que essa montanhasinha não é tão alta.
Olhando para algumas pedrinhas rolando montanha abaixo fazendo o barulho que pedrinhas fazem ao rolar montanha abaixo, percebeu que sumiam junto do barulhinho ao passarem por um pequeno barranco. Ao se aproximar e dar uma espiada percebeu também que ali ficavam os limites da montanha. Uma queda direta para uma névoa densa que dava a impressão de ser uma queda sem fim.
- Engraçado... Não ouvi elas baterem em nada... - Disse dando cuidadosos passos para trás.
- Antes elas do que eu.
Estufou o peito e andou até a porta daquela casinha de madeira, e deu fortes três batidas na porta que pareceu se retorcer de dor ao ranger por estar tão mau instalada.
Um "Já vai!" muito esganiçado respondeu às batidas.
Quando a porta se abriu aos arrastos por um idoso muito pequeno de nariz longo, gordo e com verrugas (estou falando do nariz), e chapéu de palha, com barba e cabelo quase tocando os pés enormes e chatos, o bebê se remexeu um pouco.
- O que é Afonso!? Estava fazendo uma coisa importante... - Respondeu com sua voz esganiçada e mau humorada cerrando os olhos para os lados, desconfiado. - Entra logo!
Afonso logo entrou, fazendo fazendo a casa parecer menor do que já era, com o velho se esforçando para fechar a porta.
- Se catar meleca é mais importante que salvar um bebê, volto outra hora.
O velho tirou o chapéu e coçou a careca antes escondida que reluzia com as luzes das velas que iluminavam a casinha.
- Aí tem um bebê? Nessa coberta!?
- A menos que minha barba tenha crescido demais, sim, na coberta.
- Deixa eu ver isso. - Disse arrastando uma cadeira torta de madeira até Afonso e subiu nela para ficar a altura suficiente para olhar o pequeno.
Afonso tirou a coberta que cobria o rosto do bebê, que lentamente abriu os olhos, provavelmente pela primeira vez desde que foi achado pelo mendigo bondoso.
Suas íris pareciam reluzir um azul céu, tão forte que impressionou profundamente os dois adultos que se sentiram crianças novamente ao olhar para aquelas duas órbitas que pareciam ter capturado o céu límpido de um dia de inverno. Mas algo surpreendente era o fato dele não possuir retinas, seus olhos eram de um puro e vazio azul cintilante presos por um anel negro ao redor de suas íris.
Afonso, pela primeira vez em muitos anos, ficou comovido com aquele olhar. Tentou roçar o dedo indicador no queixo do bebê e foi impedido por ele, que segurou forte seu dedo com sua mão gorducha e pequena. Um tanto forte para um bebê.
- Au... Ai... Solta.
Tentou sacudir o dedo mas ele não soltava, apenas abriu um sorriso vazio de dentes para ele. Que também pela primeira vez em anos sorriu para algo que não fosse sarcasmo, ironia ou sadismo.
- Esse bebê... Não é humano... - Disse o velho narigudo descendo da cadeira e andando pela casinha fazendo uma pausa para pensar. - Esses olhos pertencem a uma espécie muito conservadora de seres... A existência dele é completamente inaceitá...
- Velho, já falei para não beber muito desse... desse tau "chá de ervas medicinais". - Fez ele sacudindo as mãos no ar em sarcasmo.
- Idiota! - Vociferou o velho, quase rosnando de medo. - Eu não estou brincando! Os outros dele virão logo. Não vai querer um dos dele atrás de você!
- Seeei... - Disse Afonso com um tom arrastado de desconfiança. Cético como sempre. - Pensei que pudesse ajudar. Me desculpe, me enganei.
Afonso embrulhou novamente o rosto do bebê. Andou até a porta e deu uma parada pensando se tinha algo que devia perguntar a mais.
- Há algo que eu deva saber sobre cuidados com um bebê?
- Acho estranho você ignorar completamente o fato dos olhos dele serem vazios e as orelhas pontudas.
- Ainda sim é só um bebê.
- Não tire o cordão umbilical dele... Vai cair sozinho.
- Isso fede!
- Então lava a barba direito. Mas você só quer cuidar dele por ter sido abandonado também quando bebê.
- Tanto faz, velho. Mas bebês choram, esse aqui não chorou ainda.
- Se achar que ele está mau, apenas leve-o para um lugar alto como esta montanha, mas não essa!- Vociferou ressaltando como um alerta... Ou ameaça- E ele vai melhorar logo.
- Asneiras...
- Trouxe ele aqui por um motivo, não? Mas imagino que assim que chegou a certa altitude ele começou a dar sinais de melhora.
O velhote andou até sua estante, que nada mais era que um tronco com gavetas, e pegou um medalhão de outo com uma pedra amarelada no centro.
Coloque isso nele para que possa passar longos períodos em baixas altitudes. - E lançou na cara de Afonso que interceptou pegando o item estranho, após olhar o artefato por alguns segundos...
- Quanto de mim você quer dessa vez..?- Perguntou já sabendo que tudo para aquele velhote baixinho tinha um preço. E que preço.
O ancião nada mais fez que enxotá-lo de sua casa.
- Não faço isso por você. Muito menos por ele! Só mantenha essa coisa longe da minha montanha, ou você vira uva praça!
- uva passa - Corrigiu.
- TANTO FAZ! - E bateu a portal xoramingona.
Com isso Afonso começou a descer a montanha.
Alguns passos depois ele acha algumas plumas que reconhecia muito bem. Eram na verdade, penas de coruja, mas não qualquer coruja. Já havia visto várias assim no Bosque dos Anjos, mas essas eram bem maiores.
- Mas que diabos essas corujas vieram fazer aqui em cima?
Um vento frio soprou forte, o empurrando um pouco. Sua preocupação foi colocar o bebê para dentro de sua blusa, mas antes tirou uma garrafa de Sangue de Demônio. Era o nome de um vinho fortíssimo que vendiam em uma aldeia das Colinas de Bastion.
Colocou o bebê dentro de sua blusa com cuidado para não apertá-lo muito, virou um terço do líquido da garrafa goela abaixo, abrindo uma sequência de rosnados devido a queimação da forte bebida.
- Isso sim vai me esquentar!!! - Vociferou o mendigo começando a andar novamente.
Os ventos não estavam para brincadeira, sopravam cada vez mais forte e sempre mudavam de curso. Quando estavam soprando montanha a cima tudo bem, não era difícil para Afonso continuar andando em frente, era decida. O problema era quando mudavam de curso, soprando montanha abaixo subitamente, quase fazendo com que o mendigo e o bebê rolassem morro abaixo.
O engraçado era como podiam mudar de curso toda vez que Afonso passava por um buraco ou coisas do tipo, sempre empurrando ele para a morte.
Ainda que meio tonto pela bebida, se mantinha forte e imponente perante a ventania gélida que congelava até as lágrimas de Afonso criadas pelo vento em seus olhos, que já se transformava em nevasca.
Afonso pensava em cavar na neve e se enterrar em uma toca até essa ventania passar, já se encontrava exausto e ficava cada vez mais difícil resistir ao vento. Mas temia que o velho estivesse certo. E se o bebê fosse herdeiro de algum rei cujo irmão havia o matado e não queria legados vivos em seu caminho. Sem essa dele não ser humano, só era deformado e cego. Mas podiam haver caçadores atrás deles, então o melhor era continuar. Além do mais, já estava quase na base da montanha, e ainda teria de fazer um pequeno contorno em volta dela já que simplesmente descer na direção da aldeia mais próxima faria ele entrar no território dos lobos.
Afonso continuou bravamente até quase na base da montanha, havia um barranco que teria de contornar, que antes não estava ali. Tinha uns vinte Afonsos de altura, era uma quedinha e tanto.
Ele tentou olhar para baixo, e quando viu a altura soltou um assobio de impressionado.
- O Afonso não morreria de uma quedinha assim. - Disse com sua voz roca e embriagada.
Mas enquanto dava seus cuidadosos passos para trás, uma explosão de luz atrás dele o fez se assustar.
Empurrado brutalmente...
Empurrado brutalmente...
Foi tudo muito rápido e tranquilo.
Ele sentiu o chão sumir embaixo de seus pés.
Tudo ficou mais leve.
O cansaço der repente o consumiu, e ele não viu razão para resistir ao abismo. O peso da responsabilidade era demais.
Abraçar o motivo dele estar ali foi a última coisa que ele fez.
Era uma descida de costas até a morte, com suas lágrimas de arrependimento caindo mais lentamente que ele mesmo. Quase como se elas estivessem caçoando de sua expressão.
Olhando como o céu parecia fogo, evaporando imediatamente suas lágrimas.
O fogo... Foi a última coisa que viu.
A luz... O último ser que o tocou.

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